Jardim — Flor que Pensa
Poema

Inanição

Sobre a vergonha de sentir.

1 de maio de 2026

Frágil coração,

esfomeado coração.

Quando sente, queima.

Incendeia-te, incandescente,

pulveriza

e, para não ferir,

volta-se contra si mesmo.

Assusta-te a ideia

de queimar aquilo que amas.

A vergonha me consome,

me envenena,

me preenche por completo.

O exagero de tuas reações me espanta,

o excesso me apavora.

E só penso:

"o que vão achar

de tamanha imposição?"

Pena, talvez.

Ou medo.

Coração,

o que devemos fazer?

Sentir dói.

Essa fome dói.

O abismo que te compõe

clama por algo

que sabes ser impossível preencher.

Talvez

devamos

morrer de fome.

Lentamente,

dolorosamente

uma autofagia

não tão piedosa.

Talvez só assim

Eu pare de ter

vergonha de ti.

— R.A

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