Acho que a sensação de solidão deve ser algo que todo ser humano sente alguma vez na vida. Seja quando está completamente sozinho, seja envolto por uma multidão, essa sensação vai te assolar uma hora ou outra. Desde que me entendo por gente sinto que existe uma barreira entre mim e o resto do mundo, não importa o quanto eu me aproxime ou o quanto se aproximem de mim, algo impossibilita que realmente entremos em contato. Eu me distraio com a rotina, converso com meus amigos e tento esquecer dessa distância, mas, não importa o que eu faça, sempre serei atormentada pela sensação de que não sou compreendida do jeito que gostaria de ser.
Essa distância sempre foi um peso difícil de suportar, às vezes me sinto Atlas, condenada a carregar o peso dos céus nas costas. Alguns dias consigo ignorar esse peso e vejo-o apenas como um pequeno incômodo — esses são bons dias. Porém, de tempos em tempos, sou assolada por um fardo que curva as minhas costas e me deixa de joelhos, tamanha é a carga. As diferenças entre o meu eu e o Outro se tornam um abismo. Eu tenho um binóculo e consigo observar tudo que acontece na outra ponta, mas a distância é tão grande que me impede de imitá-los perfeitamente.
O peso dessa distância preenche o meu peito com solidão, é sufocante e eu não consigo respirar. Quero gritar por ajuda, gritar de raiva. Com as poucas pessoas com as quais sinto que o abismo não existe, aquela barreira insiste em permanecer. Ela é de um vidro inquebrável e quem olha do outro lado consegue me ver, mas de forma turva, e também conseguem me ouvir, mas abafado. Uma barreira que me separa do resto do mundo.
Em meio a esse caos eu abraço a solitude. Me contento com a minha presença. Já que existe essa barreira, porque não me distanciar mais ainda? Cansa tanto, sempre tentar compreender, mas nunca ser compreendida, é desgastante. Ficar sozinha me acalma, posso ser eu mesma, sem aquela máscara que me sufoca e que, depois de ser muito usada, se emaranha com o meu ser e faz com que, pouco a pouco, eu me esqueça de como eu sou sem ela.
Sozinha eu sou eu, falo engraçado e me porto de um jeito diferente. Mas sozinha não me faz feliz o tempo todo. Anseio por comunicação, por interação. Assim a solidão me persegue, não importa o quanto eu fuja, ela me alcança uma hora ou outra. É um eterno jogo de pega-pega — às vezes eu fujo dela, às vezes eu a persigo como uma tola sobrecarregada que precisa de um descanso solitário.
E assim eu me encontro presa nessa eterna brincadeira. Mesmo do outro lado da barreira, às vezes a presença dos outros me sobrecarrega. Acho que um dos motivos é que eu me encontro quase sempre performando, tentando (e falhando) ser igual aos demais. Através da barreira eu planejo cada um dos meus passos, cada fala e ação é pensada e repensada com o simples intuito de mantê-los o mais perto possível. Mas essa performance cansa. Eu corro atrás da solidão, me distancio da barreira e me recomponho em minha solitude. Assim o ciclo se repete.
Por favor não me interprete errado, eu sei que não sou a única que se sente assim, só venho aqui descrever através da escrita algo que é comum no meu cotidiano. Continuo seguindo como Atlas, sustentando o que era para ser insustentável. Com o peso dos céus nos meus ombros, uma sensação de vazio intermitente. Mas não seria isso o que é ser humano? Carregar fardos que para os outros são inimagináveis, cada um individual da sua maneira? Meu céu, meu fardo para carregar.