Um poste ilumina um ambiente escuro. Tão escuro que a única coisa que você consegue identificar é o que está sob o raio da frágil iluminação do dito poste. Você olha ao redor e teme a escuridão, tão profunda e ao mesmo tempo tão… encantadora. Como não se sentir atraído? O desconhecido é assustador e estranhamente cativante. Um frio na barriga que antecipa o que é novo toma conta de ti, deliciosamente desconfortável.
Ao se aproximar dos limites da luz, o turbilhão de ansiedade, medo e ânsia se intensifica em uma batalha de gladiadores. Qual irá vencer? O desejo de explorar o novo, ou a angústia de lidar com o desconhecido? Tantas dúvidas, mas, como sempre, você fica ali, na borda, olhando, apenas olhando. Dar aquele pequeno passo é difícil demais, o medo vence mais uma batalha sangrenta. Dando meia volta, você se encosta no poste, banhando na luz artificial, e começa a imaginar. Mundos e cenários se estendem diante de ti, em tua cabeça, o infinito é possível, e, de novo, te contentas.
As fantasias te encantam, mas, às vezes, tomam rumos sombrios. "O que vai acontecer comigo se eu explorar a escuridão?", "Coisas ruins, certamente, tudo dará errado e eu sentirei e passarei por coisas horríveis". Você fica nesse vai e volta. Alterna entre as maravilhosas possibilidades que podem se abrir ao explorar a escuridão, e as mil e uma chances de dar errado. Sinceramente, você sabe, e muito bem, que esse vai e vem só resulta em uma única coisa: estagnação.
Parado, você permanece, encostado no maldito poste que se recusa a iluminar o que você tanto anseia ver. Barulhos vindos do breu te seduzem e te atordoam. "O que seria essa bela melodia?", "Espera, que ruído foi esse?", "Aquilo foi um grito?", "Mas que música linda, preciso ouvi-la mais de perto." A curiosidade e a vontade de simplesmente experienciar estão ali, mas o medo paralisa, e ali você fica.
Porém, algo ferve no seu peito. Diferente do saco de estopa que pesa na sua cabeça, esse fervor é latente, forte, e te impede de se contentar com a estagnação. Por um lado você é puxado carinhosamente pelo medo, "Fica aqui, no que é conhecido, é seguro e confortável", do outro, esse fervor te puxa com avidez. Apesar do cuidado demonstrado pelo medo, você sabe que ele mente. O desconforto ainda vai aparecer, mesmo no carinho da claridade. A dúvida que vem com a escolha de permanecer vai te perseguir e roer seus ossos — um desconforto lento e quieto, mas que está sempre ali.
E o tempo passa
e passa
e você permanece ali,
parado.
Envolto por correntes
que pesam,
mas não te prendem
à nada.
E então? Aceita se jogar no escuro comigo?
Quando suas correntes pesarem,
eu posso tentar te ajudar.
Se pesarem demais,
ficaremos no chão
observando o escuro.
Até que levantar seja possível de novo.
E continuaremos seguindo,
sempre em frente.
Às vezes separados,
com caminhos não mais entrelaçados.
Mas porque isso importaria?
Vivamos o agora,
sentindo toda a imensidão
que o desconhecido tem a oferecer.
Do prazeroso, ao desconfortável.
Vivamos o agora.